Mais respeito: sou mulher, sou Pombagira

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“Uma rosa cor de sangue, cintila em suas mãos,

Um sorriso que nas sombras não diz sim nem não,

Põe na boca cigarrilha e se acende um olhar,

Que nas Trevas sabe o bem e o mal pra quem quiser amar….”

Em tempos em que se fala sobre empoderamento* feminino, em que a igualdade de gênero é amplamente debatida (ainda há muito caminho pela frente até superar as trevas do preconceito e da discriminação), uma figura acende para nos ensinar que nossa força não deve ser ridicularizada, minimizada e muito menos vulgarizada: a Pombagira. Ela tem voz potente, é um corpo (arquétipo) político e um espírito carregado de religiosidade, cheio de arte e intelecto. É a essência do feminino.

Pombagiras tem um poder hipnotizante, mesmo quando seus cavalinhos/médiuns não estão de acordo com os padrões estéticos que a sociedade tem como ideal.

A Pombagira vem, com sua alma revolucionária, colocar em cheque os privilégios da sociedade patriarcal** e assiste de perto a revolução feminista. Ela foge dos padrões que impostos pela sociedade e do papel que é reservado a mulher, o de mãe, dona de casa e submissa.

Veja bem, ser mãe e dona de casa não é sinônimo de submissão, não há mal algum nisso. O problema é como isso é imposto, colocado como via de regra e não como escolha da mulher. O que destacamos é a imposição de funções e modos de ser.

Alexandre Cumino fala sobre esse aspecto libertário da figura Pombagira. “Muitas, muitas e muitas mulheres sentiram na pele a dor de uma sociedade sufocando a sua voz, podando a sua liberdade e tornando-a presa a valores, muitas vezes hipócritas. Essa mulher encontrou em Pombagira uma força, uma dignidade para caminhar de cabeça erguida, força para vencer, para lutar; por isso Pombagira assusta. Assim como mulheres independentes, mulheres que não tem medo, que assumiram as suas verdades perante essas questões assustam aqueles que ainda são machistas e hipócritas. Se assustam então, com uma mulher que caminha de cabeça erguida“.

Mas, quem é essa moça?

A popularização da entidade acontece em meados dos anos 60 dentro da Umbanda e de centros espiritualistas, principalmente os de matriz africana. E vejam só, por conta do preconceito, incorporava predominantemente em mulheres e apenas mais tarde começaram a se manifestar também em homens. As sessões ou giras dessas entidades eram feitas de maneira restrita, e em alguns templos é assim até hoje.

Por conta de seu arquétipo acessível a todas as classes sociais, as Pombagiras assumiram o posto de “conselheiras sentimentais”. Em parte, isso se deve ao jeito desbocado, direto, exibicionista provocante e muitas vezes maternal que elas trazem.  Os aconselhamentos das moças são verdadeiras aulas de autovalorização, autopreservação, poder pessoal e independência. Elas em geral são procuradas para conselhos amorosos, mas esses conselhos são sábios e se contrapõem aos preconceitos sociais do qual a mulher é alvo.

Em um trecho da apostila do curso sobre Pombagira e Exu-Mirim, Rodrigo Queiroz descreve, durante uma conversa com a Sra. Maria Padilha, que: “Pombagira foi logo no início de sua incorporação dizendo ao que viera e construiu um arquétipo forte, poderoso e subjugador do machismo ostentado por exu e por todos os homens vaidosos de sua força sobre as mulheres”.

Pombagira é prostituta?

Quem sabe? E, se foi, que mal há nisso? Essa é uma questão que é pauta de confusões ideológicas e informações desencontradas que permeiam os inúmeros terreiros espalhados pelo país e também o “entendimento” popular.

Rodrigo Queiroz, pontua sobre essa questão no texto psicografado Linha e Arquétipo das Guardiãs Pombagiras:

“É certo que existem algumas Pombagiras que foram prostitutas e marginais?

Sim é certo, como também existem Exus que foram a pior espécie de homens, porém, isto é um caso à parte. O que fomos pouco importa, pois no geral, como todos os encarnados, somos espíritos humanos que sofreram sua queda e já lúcidos retomamos nosso caminho de evolução, assumindo um grau e campo de atuação sob regência dos Orixás e guardando à esquerda dos encarnados”.

Enfim, ainda temos muito o que discutir sobre a força dessas guardiãs dentro dos terreiros, muitos tabus ainda devem ser quebrados e estereótipos desfeitos.

Salve nossas Guardiãs! Salve as Moças! Laroiê Pombagiras!!!

 *Empoderamento: refere ao ato de dar ou conceder poder para si próprio ou para outrem.

**Patriarcal: é um sistema social em que homens adultos mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades.

Texto: Mayra Bandeira

Arte: Dionisio Guaitolini

Fontes:

http://www.nonada.com.br/2016/07/as-oxuns-do-mundo-real-a-tradicao-das-mulheres-na-umbanda/

https://umbandaead.blog.br/2016/11/03/a-manifestacao-feminino-na-figura-de-pombagira/

https://umbandaead.blog.br/2016/03/09/linha-e-arquetipo-das-guardias-pomba-gira/

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