Intolerância é crime, não ignore

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No último dia 11 de Fevereiro, em uma das cidades brasileiras de maior confluência religiosa, um terreiro de Umbanda foi covardemente atacado por rojões. O que era para ser uma festa beneficente, acabou com o saldo de três pessoas feridas e algumas dezenas assustadas com a brutalidade do ato.

O Centro de Umbanda Oxum Apará (Cumoa), no bairro de Piatã, em Salvador, existe há 47 anos e estava realizando um baile de carnaval com o intuito de arrecadar fundos para a manutenção dos trabalhos quando foi atacado por um vizinho que “odeia macumbeiros”, como ele próprio gosta de dizer. Não foi a primeira vez, e talvez não tenha sido a última. E a pergunta que nos fazemos é: por quê? Por que tanto ódio? Por que não conseguimos viver com a diversidade? Por que em pleno século XXI ainda não sabemos respeitar a escolha do outro?

Por quê?

Pergunta retórica que nos desafia a refletir pelo olhar do outro. Afinal, quem aqui se considera intolerante?

Vamos aos fatos. Existe um consenso popular que o Brasil é um país pacífico onde todos coabitam em perfeita harmonia religiosa. Porém, registros recentes na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, mostram que nos últimos 5 anos ocorreram mais de mil casos de intolerância religiosa. Desses, mais de 70% foram contra adeptos de religiões de matrizes africanas.

Outro estudo da PUC-Rio sugere que muitos crimes de intolerância religiosa são subnotificados como racismo, injúria, ou briga de vizinhos, não sendo aplicado a tipificação penal adequada. Também no Rio de Janeiro, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa afirma que tal prática é resultado da falta de vontade política para implementar medidas nacionais mais eficientes. Hoje não temos órgãos que acolham denúncias e orientem as vítimas em todos os Estados. Muito menos existe uma base de dados nacional que monitore esses números, o que gera enorme discrepância pelo território brasileiro. Nesse cenário de incertezas, o Estado até reconhece a diversidade religiosa do país, mas não a garante por direito. O que observamos de fato, é um completo desacordo no respeito às religiões em espaços e instituições que, ao contrário, deveriam zelar pela diferença e garantir sua proteção por meio de políticas públicas diversificadas.

Leonardo Boff* em sua reflexão sobre o tema, diz que a grande maioria de nós pratica a tolerância passiva, aquela atitude de quem aceita a existência com o outro não porque o deseje e veja algum valor nisso, mas porque não o consegue evitar. Quando no fundo, deveríamos praticar uma tolerância ativa”, atitude de convivência positiva baseada na coexistência, onde existe respeito pelo outro e a diferença é moeda de enriquecimento pessoal.

E se estamos falando de intolerância religiosa, para nós umbandistas, o espinho nos doí ainda mais, já que nos provoca intimamente: como amar quem me odeia? Como respeitar a opinião de quem não me reconhece seu irmão? É possível não revidar?

Quando aprendemos com nossos mestres e guias espirituais que devemos amar e respeitar, a tudo e a todos como parte integrante de nós, a verdadeira prova se coloca quando nos deparamos com alguém que nos odeia, simplesmente porque profetizamos nossa fé de outra forma que não a dele. E se a Umbanda é uma religião que se orgulha do seu caráter sincrético, não podemos jamais perder de vista que a diferença é fundamental para nós. Sem ela a Umbanda não existiria. Sem a diferença dificilmente aprenderíamos o verdadeiro sentido do respeito, da tolerância e do amor.

E se por um lado não posso deixar de praticar o amor, preciso aprender que amar é não se omitir. Não podemos deixar de refletir que a intolerância religiosa é crime previsto pela Constituição brasileira, e que por isso não pode ser aceito passivamente. Não é porque meus guias me ensinam a tolerância e o respeito que vou aceitar livremente ser agredido. Muitos vão tentar te convencer que não tem problema, afinal, não foi Jesus que nos ensinou que ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra (Lucas 6:29)?

Ora meus irmãos. Fica evidente que não é esse o sentido trago pela espiritualidade até nós. Enunciando aquela máxima, não pretendeu Jesus proibir toda defesa, mas condenar a vingança. E qual o melhor mecanismo para se evitar a vingança e prevalecer a igualdade de direitos? Fazermos valer as leis, é claro! A Umbanda, como toda religião, é fruto de uma construção social, e legitimada como tal não pode viver a margem da sociedade porque tem vergonha de lutar por direitos que são universais. A Umbanda sempre apoiou e apoia a defesa do direito de liberdade de expressão e de profetização da fé sem qualquer tipo de proibição ou discriminação, desde que se respeite os limites legais do outro. Simples.

Por isso Umbandista, praticar uma tolerância ativa não significa ignorar os aspectos legais da sociedade.

Omissão não é caridade!

Perceba que é chegado o tempo de amadurecer o verdadeiro sentido do viver coletivamente sem perdermos nossa consciência religiosa. E a Umbanda nos ensina isso todos os dias. Caso ainda não tenha despertado, ainda é tempo. Só construiremos uma cultura de paz duradoura quando derrubarmos as fronteiras que nos separam de nós mesmos. Sem tabus e sem medos, pelo exemplo e pela ação, ajudaremos o outro a se livrar das velhas correntes que nos aprisionam ao passado, colaborando enfim para a construção de uma sociedade mais justa e tolerante.

Se a sua religião prega o amor e o respeito a vida, e você aprendeu a viver a sua religião, tudo que fizer cumprir é um gesto sagrado, porque Deus está em tudo que fazemos, e porque no fim, somos nós a verdadeira face de Deus.

Que Zambi nos proteja e ampare, hoje e sempre!

 

Texto: Vinicius Gonzalez

Fontes de inspiração:

http://ccir.org.br/

http://www.correio24horas.com.br/detalhe/salvador/noticia/centro-de-umbanda-e-atacado-durante-festa-em-salvador/?cHash=035e9c84263c7b1ae978d59768299af8

http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2015/05/no-brasil-intolerancia-religiosa-nega-cultura-mestica-4514.html

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160120_intolerancia_religioes_africanas_jp_rm

*https://leonardoboff.wordpress.com/2015/01/22/a-intolerancia-no-brasil-atual-e-no-mundo/

 

 

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