O amor que é pérola: Salve Iemanjá!

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“Era ela, nas ondas do mar
Que coisa mais linda,
Mamãe Iemanjá…”

Se te peço para fechar os olhos e pensar em Iemanjá, a imagem que vem a sua mente é a de uma mulher linda, branca, exibindo um comprido cabelo preto, pairando sobre o mar e vestindo um longo vestido azul celeste? Assim é a concepção que filhos de santo ou não, pessoas dos mais variados credos e cantos do nosso Brasil, tem da Rainha do Mar. Ouso dizer, inclusive, que até quem não é desta pátria enxerga ela desse jeito.

A mãe que abre os braços deixando cair de suas mãos pequenas pérolas, como um presente, símbolo do amor aos seus filhos. Rainha da água salgada, da imensidão dos mares. Da grande Calunga. Na história já se tem registro de que essa é uma imagem genuinamente umbandista e que ajudou a popularizar a Orixá.

Existem diversas versões sobre o surgimento da figura de Iemanjá. A primeira delas, descrita no livro História da Umbanda no Brasil, volume III, de Diamantino Fernandes Trindade, é a versão do escritor José Beniste onde ele diz que o marido da médium Dala Paes Leme, umbandista fervorosa e filha de Iemanjá, como forma de homenagear a esposa mandou pintar um quadro com as feições dela. Isso na década de 50.

Diamantino destaca no livro também uma outra versão, na qual Dala teria tido uma visão e pediu para que um artista (desconhecido) a pintasse. Ela própria presidiu uma comissão que tinha como objetivo divulgar a pintura e passou a organizar procissões com o quadro por entre os terreiros da época. Assim popularizou-se a imagem clássica que temos hoje. A esse quadro foi atribuído o início das festividades de Iemanjá no fim do ano nas praias do Rio de Janeiro e que posteriormente se espalhou por todo o país.

iemanjc3a1_dala_01Primeiro retrato de Iemanjá visionado por Dala Paes Leme

Iemanjá foge para o mar

Em seu livro Mitologia dos Orixás, o antropólogo Reginaldo Prandi, conta a criação do mito de Iemanjá. Diz a lenda que ela fugiu para o mar com a ajuda de Xangô, para escapar dos maus tratos do segundo marido, o rei Oquerê. Como teve muitos filhos do primeiro casamento, ela amamentou demais e isso teria deixado seus seios imensos. Coisa que ela fez Oquerê prometer que jamais mencionaria.

A promessa foi quebrada e decepcionada Iemanjá decidiu fugir para a casa da mãe, Olocum, senhora do mar. Irado, Oquerê mandou um exército atrás da esposa. Quando estava quase sendo alcançada, Iemanjá logo se transformou num rio para correr mais depressa. Mais adiante, Oquerê a alcançou e pediu que voltasse.

Como Iemanjá não atendeu o pedido do marido, ele se transformou numa montanha, barrando sua passagem do rio até as águas do mar. Foi então ela pediu ajuda a Xangô que, com um raio, provocou uma grande chuva, que encheu o rio. Com outro raio, partiu a montanha em duas e Iemanjá pôde correr para o mar. Lá ela ficou, tomou seu reino e recusa-se, desde então, a voltar-se em terra.

Sincretismo

Sabe-se que para cultuar seus deuses os escravos africanos procuraram fazer casamentos entre santos cristãos e Orixás, buscando pontos em comum nos mitos. Essa aculturação* também foi praticada pelos jesuítas portugueses.

Para Iemanjá foi reservado o lugar de Nossa Senhora, sendo, então, artificialmente mais importante que as outras divindades femininas, o que foi assimilado em parte por muitos ramos da Umbanda. A seu arquétipo** também são atribuídas Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora da Conceição (assim como Oxum) e Nossa Senhora dos Navegantes.

Em Iorubá, língua usada em muitos ritos religiosos, ieiê ama ejá significa mãe cujos filhos são peixes.

Salve as Senhoras das Águas

Em todo o país, em 2 de fevereiro é comemorado o dia de Iemanjá. O motivo da data explica o antropólogo Pierre Fatumbi Verger, seria pela influência do sincretismo de Iemanjá com Nossa Senhora das Candeias, celebrada nesse dia.

Já em algumas tradições e vertentes religiosas o 8 de dezembro é o dia escolhido para se saudar Iemanjá e também a Mamãe Oxum. A data está sincretizada com o dia de Nossa Senhora da Conceição ou Imaculada Conceição. Nas 7 Linhas de Umbanda Iemanjá simboliza o Trono da Geração que por sua vez rege o fator gerador.

São diversos os contos populares que relacionam Oxum (dona das águas doces) e Iemanjá (das águas salgadas) com esse dia. Diz-se que Iemanjá e Oxum resolveram um dia se unir, atendendo as preces de seus filhos, e nesse momento emanaram de si bondade, amor, aroma e encanto, a fim de abençoá-los. Nesse dia todos foram curados e revigorados em plenitude, porque o amor tudo recobra.

Apesar dos ensinamentos tradicionais relacionarem tanto Oxum como Iemanjá à função da maternidade, pode estabelecer-se uma boa distinção entre esses conceitos. As duas Orixás não rivalizam. Cada uma domina a maternidade num momento diferente. Iemanjá é aquela que apara a cabeça dos bebês no momento de nascimento.

De acordo com o estudo publicado pela Sociedade Espiritualista Mata Virgem, numa Casa de Santo, Iemanjá atua dando sentido ao grupo, à comunidade ali reunida e transformando essa convivência num ato familiar; criando raízes e dependência; proporcionando sentimento de irmão para irmão em pessoas que há bem pouco tempo não se conheciam; proporcionando também o sentimento de pai para filho ou de mãe para filho e vice-versa, nos casos de relacionamento dos Babalorixás (Pais no Santo) ou Ialorixás (Mães no Santo) com os Filhos no Santo.

Popularidade

Janaína, Oloxum, Oguntê, Inaiê, Inaiá, Sobá, Dandalunda, Princesa de Aiocá, Mucunã, Maria… Dona Iemanjá tem todos esses nomes, e mais outros. Tão querida e popular, a Orixá ganhou o coração dos brasileiros. Ganhou até música. A mais conhecida é Dois de Fevereiro, de Dorival Caymmi, que se rendeu aos encantos da poderosa sereia.

De acordo com organizações culturais afro-brasileiras, até 70 milhões de pessoas participam regular ou ocasionalmente de festas do candomblé como a de Iemanjá, uma das mais populares. A celebração transcendeu a fronteira das crenças religiosas e virou parte da cultura brasileira. Na virada do ano, milhares de pessoas vão para a beira das praias levar suas oferendas.

Odoyá minha Mãe Iemanjá!

*Aculturação: Adaptação de um indivíduo ou de um grupo a uma cultura diferente com a qual mantém contato direto e contínuo; aculturamento.

**Arquétipo: Modelo ou padrão passível de ser reproduzido em simulacros ou objetos semelhantes.

Texto: Mayra Bandeira

Fontes:

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

VERGER, Pierre. Orixás: Deuses iorubás na África e no novo mundo. Ed. Corrupio, 1997.

Sociedade Espiritualista Mata Virgem. Curso de Umbanda: Oxóssi. Rio de Janeiro, 2011. (Apostila).

Sociedade Espiritualista Mata Virgem. Curso de Umbanda: As 7 Linhas de Umbanda. Rio de Janeiro, 2011. (Apostila).

Os Sete Tronos da Umbanda. Disponível em: http://www.fucesp.com.br/news/os-sete-tronos-da-umbanda/

Salve as Senhoras das Águas. Disponível em: https://umbandaead.blog.br/2016/12/07/4603/

Imagem de Iemanjá da Umbanda. Disponível em: https://umbandaead.blog.br/2016/12/07/4603/

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